GUIAS/PASSO A PASSO

Comprar Casa em Portugal

Da proposta às chaves: o processo e os custos, passo a passo

Comprar casa em Portugal não é difícil, mas tem ordem certa e custos que apanham muita gente de surpresa. Aqui está o caminho que eu segui, do NIF à escritura, com o que se paga, a quem e quando.

·ATUALIZADO AGOSTO 2026·15 MIN·FONTES OFICIAIS
EM RESUMO
IMT (até)
0% até 106 346 € · depois até 8%
IMPOSTO DO SELO
0,8% da compra + 0,6% do crédito
SINAL TÍPICO
10% no CPCV
IMT JOVEM
Isenção total até 330 539 € (≤35 anos)
CRÉDITO JOVEM (≤35)
Até 100% com garantia do Estado
NÃO RESIDENTES
Bancos financiam 60% a 70%

Comprei a minha casa cá depois de arrendar uns anos, e a parte que mais me surpreendeu não foi encontrar o imóvel: foi a sequência. Há uma ordem natural: tratar do número fiscal e do banco, garantir o financiamento, assinar o contrato-promessa com o sinal, fazer a due diligence aos papéis e, só no fim, a escritura. Cada passo tem o seu custo. Vou percorrer todos.

Os valores que cito são de 2026 e estão confirmados nas fontes oficiais no fim do artigo. Tudo isto muda com o Orçamento do Estado, por isso trate os números como ponto de partida, não como evangelho.

Antes de tudo: NIF e conta bancária

Não se compra nada em Portugal sem NIF (número de identificação fiscal). É pedido na escritura, no crédito, em tudo. Se ainda não o tem, trate dele primeiro. Temos um guia só para isso. A seguir, abra uma conta bancária portuguesa: vai precisar dela para os pagamentos, e se for pedir crédito, é por aí que o banco corre o processo.

NOTA
Ter NIF não o torna residente fiscal, e pode comprar imóvel em Portugal sendo não residente. Quem vem de fora da UE pode precisar de um representante fiscal para o NIF.

Financiamento e pré-aprovação

Se vai pagar a pronto, salte para o CPCV. Se vai pedir crédito habitação, comece pela pré-aprovação antes de fazer propostas. O banco analisa os seus rendimentos e dá-lhe um valor indicativo: assim sabe quanto pode oferecer sem ficar pendurado.

Dois números mandam no crédito. O primeiro é quanto o banco empresta: por norma até 90% do valor mais baixo entre o preço de compra e a avaliação que o próprio banco manda fazer. Os restantes 10% (mais impostos e custos) saem do seu bolso. O segundo é a taxa. A maioria dos créditos é indexada à Euribor mais um spread do banco; também há taxa fixa e mista. O spread é negociável e varia muito conforme o banco, o seu perfil e os produtos que aceitar (seguros, domiciliação do ordenado).

A pré-aprovação não é só para o banco. É para si saber, antes de se apaixonar por uma casa, qual é o seu teto real.
ELIJAH

Tem até 35 anos? Pode financiar até 100%

Até 31 de dezembro de 2026, o Estado serve de fiador em até 15% do preço, o que permite aos bancos financiar até 100% da primeira habitação própria e permanente a quem tem entre 18 e 35 anos (Decreto-Lei n.º 44/2024). As condições principais: preço de compra até 450 000 €, rendimentos até ao 8.º escalão do IRS, não ter outra habitação e nunca ter usado a garantia. Nem todos os bancos aderiram com o mesmo apetite, por isso pergunte diretamente. E acumula com a isenção de IMT e de Imposto do Selo jovem, mais abaixo, nos custos.

Crédito para não residentes

Se vive no estrangeiro, os bancos emprestam menos: por norma 60% a 70% do valor mais baixo entre preço e avaliação, às vezes um pouco mais para residentes na UE que ganham em euros, com prazos até 30 anos. Na prática, conte com 30% a 40% de capital próprio somando impostos e custos. De resto, o processo é o mesmo: NIF, conta cá, mais documentos de rendimento do país onde vive (declarações de impostos, recibos de salário, extratos bancários). Vários bancos têm linhas próprias para não residentes, e o spread tende a ser um pouco mais alto. Teste a prestação no simulador de crédito habitação antes de se comprometer com um intervalo de preço.

O CPCV e o sinal

Aceite a proposta, assina-se o CPCV, contrato-promessa de compra e venda. É o documento que prende as duas partes ao negócio enquanto se trata do crédito e dos papéis. No CPCV define-se o preço, o prazo até à escritura, o que está incluído e, sobretudo, o sinal.

O sinal é normalmente 10% do preço e é pago na assinatura do CPCV. Não é um detalhe: é a garantia do negócio. O artigo 442.º do Código Civil define as regras com clareza.

  1. 1
    O comprador desiste
    Se a desistência lhe é imputável, perde o sinal que entregou. O vendedor fica com ele.
  2. 2
    O vendedor desiste
    O vendedor devolve o sinal em dobro. É o chamado sinal em dobro.
  3. 3
    Forçar a venda em alternativa
    A parte cumpridora pode, em vez de ficar com o dinheiro, pedir a execução específica em tribunal e obrigar o negócio a concretizar-se.
O MEU CONSELHO
Faça o máximo de due diligence antes do CPCV, não depois. Assim que o sinal é pago, a margem para renegociar ou sair barato desaparece.

Due diligence: os papéis

Esta é a parte sem glamour que evita os pesadelos. Antes de avançar, eu confirmaria (ou pediria a um advogado/solicitador para confirmar) quatro documentos:

  • Caderneta predial: o registo fiscal do imóvel nas Finanças. Diz quem é o titular para efeitos fiscais, a descrição e o valor patrimonial tributário (VPT).
  • Certidão permanente de registo predial: quem é mesmo o dono e que ónus existem: hipotecas, penhoras, usufrutos. É aqui que se descobre se a casa tem dívidas penduradas.
  • Licença de utilização (câmara municipal): confirma que o imóvel pode ser usado para habitação. Sem ela, problemas a sério.
  • Certificado energético: obrigatório para vender; mostra a classe energética. A falta dele é, por si só, um sinal de alarme.

Se algum destes documentos não bate certo (áreas que não correspondem, obras não legalizadas, um ónus que ninguém mencionou), é melhor saber antes do sinal do que depois.

A escritura

A escritura (a compra e venda formal) é o último passo: é onde a propriedade passa para o seu nome. Pode ser feita num cartório notarial, num balcão Casa Pronta (serviço dos registos que junta escritura e registos num único ato) ou através de advogados e solicitadores com poderes de autenticação. Quando há crédito, o banco costuma marcar e organizar tudo.

  1. 1
    Pagar os impostos primeiro
    O IMT e o Imposto do Selo pagam-se antes da escritura. Leva-se o comprovativo para o ato.
  2. 2
    Assinar a escritura
    Assinam as duas partes (e o banco, se houver crédito). Paga-se o restante do preço.
  3. 3
    Registar a aquisição
    A aquisição (e a hipoteca) ficam registadas em seu nome. No Casa Pronta isto é feito no mesmo ato.

Comprar à distância

Nenhum dos passos exige, na verdade, estar em Portugal. O NIF pode ser pedido através de um representante, há bancos que abrem conta à distância e tanto o CPCV como a escritura podem ser assinados em seu nome. O que faz tudo funcionar é uma procuração, normalmente passada ao advogado que conduz a compra.

Há três formas de a passar: num consulado português no país onde vive; num notário local, juntando apostila de Haia e tradução certificada para português; ou digitalmente, se tiver meios de identificação digital portugueses. Seja qual for a via, faça uma procuração com poderes específicos (pedir NIF, abrir conta, assinar CPCV e escritura), não com poderes gerais.

Desde 2022 há também uma via totalmente online: escrituras e processos Casa Pronta podem ser feitos por videoconferência, na Plataforma de Atendimento à Distância da Justiça. O senão: exige Cartão de Cidadão ou Chave Móvel Digital com a assinatura digital ativa, por isso serve sobretudo cidadãos e residentes. Estrangeiros sem identificação digital portuguesa acabam na via da procuração, e funciona perfeitamente.

O MEU CONSELHO
Serviços de compra chave na mão existem, mas tenha claro quem trabalha para quem: o mediador é pago pelo vendedor. Quem está do seu lado é o advogado que contratar, a tratar da due diligence, do CPCV e da escritura por procuração. Os honorários típicos rondam 1% do preço mais IVA, ou um valor fechado. Peça orçamento por escrito e nunca pague o sinal antes da due diligence feita.

Uma nota prática sobre o dinheiro: os pagamentos saem da sua conta portuguesa, e o banco vai perguntar de onde vieram os fundos, sobretudo quando chegam de fora da UE. Tenha o rasto documentado (venda de outro imóvel, poupanças, salário) e conte com dias, não horas, para as transferências internacionais chegarem. Trate disto com folga antes da data da escritura.

Os custos: quem paga o quê

Quem suporta o grosso dos custos de transação é o comprador. A comissão do mediador, essa, é normalmente do vendedor. Aqui está o que sai do seu lado:

DESPESAQUANTOQUANDO
IMT0% até 106 346 € · marginal até 8%Antes da escritura
Imposto do Selo (compra)0,8% do preçoAntes da escritura
Imposto do Selo (crédito)0,6% (prazo igual ou superior a 5 anos) · 0,5% (1 a <5 anos)Com o crédito
Comissões do banco (estudo + avaliação)500 € a 1 000 €Com o pedido de crédito
Registo (online/Predial Online)~225 €/atoNa escritura
Casa Pronta (1 ato)375 €Na escritura
Casa Pronta (compra + hipoteca)700 €Na escritura
Anúncio do direito de preferência15 €Na escritura

IMT, o grande

O IMT (Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis) é o maior encargo e o que mais varia. Incide sobre o valor mais alto entre o preço e o VPT, por escalões progressivos. Para habitação própria e permanente no continente, em 2026, não há IMT até 106 346 €; acima disso aplicam-se taxas marginais de 2%, 5%, 7% e 8% até 660 982 €, com taxas únicas de 6% e 7,5% nos valores mais altos. O cálculo usa uma parcela a abater, por isso a melhor forma de saber o valor exato é num simulador.

Há um benefício importante: quem tem até 35 anos e compra a primeira habitação própria e permanente tem isenção total de IMT e de Imposto do Selo até 330 539 € (valor de 2026) e isenção parcial entre 330 539 € e 660 982 €. Acima disso, não há benefício. A isenção pede-se à Autoridade Tributária: online, numa repartição de Finanças ou através dos serviços que tratam da escritura.

Imposto do Selo

Pagam-se dois Selos: 0,8% sobre o preço de compra e, se houver crédito, 0,6% sobre o valor financiado quando o prazo é igual ou superior a cinco anos (0,5% se for inferior a cinco anos). Numa casa com hipoteca, os dois somam-se.

Registos e escritura

Há dois canais. Pelo Predial Online, o registo por ato ronda os 225 € (aquisição e hipoteca contam como atos separados). Pelo Casa Pronta, que junta escritura e registos num só balcão, um ato custa 375 € e um processo com mais do que um ato, o caso normal de compra com crédito (aquisição + hipoteca), custa 700 € no total. O anúncio do direito de preferência custa 15 €. A estes juntam-se pequenas taxas (cópias do contrato, autenticações). Se for por cartório notarial, os honorários do notário são à parte. Os jovens compradores com isenção de IMT (≤35 anos, primeira habitação) estão isentos destes emolumentos de registo.

Um exemplo com números redondos

Uma casa de 250 000 € no continente, habitação própria e permanente, com crédito de 90% (225 000 €). IMT: 7 042 €. Imposto do Selo da compra: 2 000 €. Imposto do Selo do crédito: 1 350 €. Casa Pronta com hipoteca: 700 €. Comissões do banco: cerca de 700 €. Dá perto de 11 800 € de impostos e encargos além da entrada de 25 000 €: uns 37 000 € à cabeça antes das chaves, mais cerca de 1% + IVA se contratar advogado. Agora a mesma casa comprada por alguém com até 35 anos: a isenção apaga os 7 042 € de IMT, os 2 000 € do Selo da compra e os emolumentos do registo, e com a garantia pública a própria entrada pode cair para zero.

Para somar tudo ao seu valor concreto (IMT, os dois Selos e os registos), use a calculadora de custos. É a forma honesta de saber, antes de assinar o CPCV, quanto é que a casa lhe vai custar a sério.

Depois da compra: os custos que ficam

Os custos de compra acabam na escritura; estes não. O principal é o IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis, pago todos os anos): 0,3% a 0,45% do VPT, à taxa que cada município define. Veja a taxa do seu município na tabela de impostos municipais e o valor concreto na calculadora de IMI. Uma isenção que vale a pena conhecer: 3 anos sem IMI quando o VPT é até 125 000 € e o rendimento bruto do agregado até 153 300 €, no máximo duas vezes por agregado.

A somar a isso: o AIMI se a soma dos VPT habitacionais passar 600 000 € por titular, o condomínio num prédio, e os dois seguros que acompanham o crédito (vida e multirriscos). Reveja esses seguros de ano a ano: mudar de seguradora é permitido e muitas vezes compensa.

Perguntas frequentes

Quanto preciso de ter à cabeça para comprar?
Conte com a entrada (a maioria dos bancos financia até 90% do valor mais baixo entre compra e avaliação, logo 10% sai do seu bolso), mais os impostos e custos: IMT, Imposto do Selo, escritura e registos. Numa casa de 250 000 € com crédito, os impostos e encargos somam facilmente perto de 12 000 € além da entrada. Faça as contas no simulador de custos antes de assinar o CPCV.
O que acontece se eu desistir depois do CPCV?
Pelo artigo 442.º do Código Civil, se o comprador desistir por causa que lhe seja imputável, perde o sinal que entregou. Se for o vendedor a desistir, devolve o sinal em dobro. Em alternativa, a parte cumpridora pode pedir a execução específica do contrato em tribunal, ou seja, obrigar a venda. Leia o CPCV com atenção antes de assinar.
Preciso de advogado ou de mediador?
Não é obrigatório, mas a due diligence é onde se evitam os problemas caros. Eu pagaria a um advogado ou solicitador para rever a certidão de registo, a caderneta predial e a licença de utilização antes do CPCV. A comissão do mediador é, por norma, paga pelo vendedor.
A isenção de IMT para jovens ainda existe em 2026?
Sim. Quem tem até 35 anos e compra a primeira habitação própria e permanente tem isenção total de IMT e de Imposto do Selo até 330 539 € (valor de 2026), e isenção parcial entre 330 539 € e 660 982 €. Acima disso não há benefício. As condições e os limites são atualizados em cada Orçamento do Estado, por isso confirme no portal gov.pt.
Onde se faz a escritura?
Pode ser feita num cartório notarial, num balcão Casa Pronta (serviço dos registos) ou através de advogados/solicitadores com competências de autenticação. O Casa Pronta junta escritura e registos num só ato. Quando há crédito, é normalmente o banco a marcar e a tratar da logística.
Sou não residente. Consigo crédito habitação em Portugal?
Sim, a maioria dos grandes bancos empresta a não residentes, mas empresta menos: por norma 60% a 70% do valor do imóvel, com prazos até 30 anos. Na prática precisa de 30% a 40% em capital próprio, contando com impostos e custos. Prepare documentos de rendimento do país onde vive: declarações de impostos, recibos de salário e extratos bancários.
Consigo comprar sem vir a Portugal?
Consegue. O NIF pode ser pedido por um representante, há bancos que abrem conta à distância e tanto o CPCV como a escritura podem ser assinados por um procurador, com procuração passada num consulado português ou num notário estrangeiro com apostila e tradução certificada. Quem tem Cartão de Cidadão ou Chave Móvel Digital pode ainda fazer a escritura por videoconferência, na Plataforma de Atendimento à Distância da Justiça.
O que é a garantia pública para jovens?
É o Estado a servir de fiador: garante até 15% do valor da casa para o banco poder financiar até 100% (Decreto-Lei n.º 44/2024). É para quem tem entre 18 e 35 anos, compra a primeira habitação própria e permanente até 450 000 €, tem rendimentos até ao 8.º escalão do IRS e nunca usou a garantia. Os contratos têm de ser assinados até 31 de dezembro de 2026, e o benefício acumula com a isenção de IMT e de Imposto do Selo.
FONTES OFICIAIS
AVISO
Este guia é a minha experiência mais fontes oficiais, não aconselhamento jurídico nem fiscal. Os escalões do IMT, os limites de isenção e as taxas mudam, normalmente em cada Orçamento do Estado. Confirme sempre os valores atuais nas fontes oficiais ligadas acima e, num negócio desta dimensão, fale com um advogado ou solicitador antes de assinar.